Há versos que se instalam em nós com a subtileza de quem não pede licença. O dos 4 e Meia — “O pai vai ali mudar o mundo e já vem”, da canção Meu Amor Dorme Bem — é um desses. Na canção soa quase doce, comovente até, mas quando o trazemos para a vida real e o cruzamos com o mundo em que vivemos — tão barulhento, tão acelerado, tão cheio de urgências que se atropelam — ele deixa de ser melodia e torna-se espelho. Um espelho da ausência justificada, do tempo adiado, do toque transformado em promessa.
Afinal, que “mundo” é esse que tanta gente anda a tentar mudar? O da profissão? O das expectativas? O das crises que nunca chegam a ser verdadeiramente resolvidas? Ou este mundo maior, onde tudo parece sempre demasiado longe para nos tocar e, ao mesmo tempo, perto o suficiente para nos exigir opinião, reação, intervenção imediata?
Vivemos numa era em que estar ocupado virou símbolo de valor. A agenda cheia é orgulho; o silêncio é falha; a pausa, um luxo suspeito. Numa altura em que o planeta inteiro parece viver em estado de alerta permanente, quase acreditamos que é obrigatório estar sempre em movimento, sempre a contribuir, sempre a “fazer alguma coisa”. E assim, com a melhor das intenções, começamos todos a repetir a frase da canção — não literalmente, mas nos gestos. Vamos “ali” mudar qualquer coisa: um projeto, um objetivo, uma causa, um estatuto, uma urgência que o mundo nos atira para as mãos. Vamos “ali” apagar incêndios — os reais, os metafóricos, os que nem sabemos se nos dizem respeito. E num instante percebemos que não fomos… estamos sempre a ir.
E, sem darmos por isso, deixamos de ser apenas “o pai” da canção.
Passamos a ser nós:
Nós vamos ali mudar o mundo e já voltamos.
Dizemo-lo de mil maneiras — em emails, em causas que abraçamos pela superfície, em indignações fugazes mas cada vez mais frequentes, em silêncios que justificamos com a pressa — mas a essência é a mesma: estamos sempre a ir, raramente a ficar.
O problema é que, nesse caminho, deixamos por cuidar o que era mais simples, mais nosso e mais urgente: as pessoas. As de perto e as de longe. As que precisam agora, e não numa época do ano calendarizada para isso. Os mais novos, que trocam brincadeiras por distrações. Os mais velhos, que esperam conversas que nunca chegam. Os nossos e os outros, os que aprendem a transformar a falta em rotina. E nós próprios, que perdemos a habilidade rara de simplesmente estar.
Há uma estranha ironia no facto de vivermos num tempo em que se fala tanto de “mudar o mundo”, mas tão pouco de cuidar dele. Em que se amplificam causas e debates, mas se esquece o gesto quieto, disponível, real — aquele que não dá medalhas nem estatuto, mas transforma profundamente.
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