O Antigamente

Voou o tempo — o meu — em que ninguém queria um Natal “bonito para mostrar”, mas sim um Natal vivido de forma diferente. Não precisava de ser instagramável.

As casas enchiam-se de fitas prateadas feitas à mão — que brilhavam quase como papel de alumínio, porque eram mesmo papel de alumínio — e de um presépio que ganhava vida com musgo apanhado no campo, aquele cheiro de terra molhada tratado como relíquia, e depois devolvido à natureza. Era ali, nesse tufo de filideos — o que sei hoje! — que as figuras do presépio se multiplicavam a cada ano.

E claro, não faltava o pinheiro verdadeiro — como o musgo, depois devolvido à origem — com um aroma fresco e ligeiramente cítrico. Ambos enchiam a casa de cheiro a floresta, inspirando o espírito reconfortante do Natal. Simplesmente.

A comunicação natalícia também era outra. Não havia mensagens instantâneas nem emojis: havia cartas escritas à mão para o Menino Jesus, enviadas com esperança e que demoravam semanas a chegar — por isso escreviam-se cedo, no início de dezembro, tempo suficiente para nos arrependermos três vezes do que tínhamos pedido.

E os postais! Esses iam ou vinham pelo carteiro — cheios de carinho, frases com laços desenhados e um ligeiro perfume que os tornava ainda mais especiais.

E depois, claro… os presentes. Não havia aquela chuva de embrulhos que hoje aparece debaixo da árvore. Havia um presente. Um único. O tal. O escolhido. O esperado. O que chegava ali, ao lado do sapatinho engraxado e colocado sob a chaminé — estrategicamente ao centro — na noite de 24, antes de ir para a cama, tão bem alinhado que até o Menino Jesus, lá no alto, pensaria: “Assim sim, dá gosto entregar.”

 

O Natal 2.0

Mas entretanto… chegaram outros tempos e, com eles, um Natal atualizado para a versão 2.0.

As casas já não se iluminam com aquela luzinha teimosa que piscava até queimar metade da árvore; agora são luzes LED controladas por uma app que mudam de cor ao ritmo de playlists natalícias. Basta um toque no ecrã para transformar a sala em “Noite Feliz” ou ter neve artificial num T3.

E as árvores? Poucos arriscam um pinheiro natural quando existe a versão “artificial à prova de gato”, capaz de sobreviver a escaladas felinas, saltos ninja e ataques-surpresa às bolas vermelhas.

A comunicação também ganhou novo brilho. O carteiro deixou de trazer postais perfumados para dar lugar ao WhatsApp, que em dezembro se transforma numa feira digital de renas, Pais Natais a dançar e mensagens de voz enviadas por alguém que parece nunca estar sóbrio o suficiente para falar claramente.

As longas cartas ao Menino Jesus foram substituídas por videochamadas com o “Tio Zé”, que às vezes aparece pixelizado, mas de coração cheio. E, claro, as listas de presentes já não se escondem na gaveta: partilham-se, comentam-se e editam-se como se fossem relatórios de trabalho.

E quanto aos presentes… bom, esses também evoluíram. Onde antes havia um único, agora há drones, consolas, gadgets e até caixas que piscam antes mesmo de serem abertas.

E se alguém se esqueceu ou não teve oportunidade de aproveitar a Black Friday? Sem problema: basta uma compra online no próprio dia 24 — entre a sobremesa e o café — e a magia do “entregamos ainda hoje” resolve tudo.

Até parece milagre… só que feito por estafetas que nos chegam de capacete fluorescente, que lhes esconde o cansaço, a origem e o género, mas que nos servem com dedicação mesmo numa noite de Natal. E como eles há muitos outros.

 

A Magia e a Realidade

A magia do antigamente tinha um sabor especial, um misto de inocência e ingenuidade que a tecnologia do agora rapidamente desmistifica.

Quase me passou despercebido na altura, mas houve um Natal em que a magia infantil sofreu a primeira fissura: descobri, anos depois, que não era o Menino Jesus quem trazia os presentes.

Lembro-me do dia em que o meu mundo quase ruiu: a realidade surgiu no quarto dos meus pais, na véspera de Natal, quando vi, no armário, um embrulho. E foi esse mesmo embrulho que me apareceu no sapatinho na manhã de 25.

Tinha a certeza de que era o Menino Jesus quem trazia os presentes, e aí duvidei e comecei a questionar. A minha mãe, numa tentativa de salvar a minha fé, corrigiu: “Não, são os Reis Magos! Porque o Menino Jesus não pode chegar a tantas casas ao mesmo tempo.”

Hoje, sabemos que o Pai Natal conta com uma poderosa rede de distribuição…

Mas, naquela altura, era então um carro da polícia com fricção, um VW Carocha, aquele carro que tanto desejei, que tinha uma sirene e fazia um barulho infernal — e que o meu pai, só anos mais tarde descobri, silenciou de propósito ao fim de um dia, para salvar a sanidade mental da casa.

E eu, já sem traumas pela descoberta de como o carro tinha chegado ao meu sapato, habituei-me também a brincar, sem fricção e sem ruído.

 

Mensagem Social

Talvez seja disso que precisamos hoje: desligar as “sirenes sociais”, reduzir fricção, diminuir o ruído das comparações e expectativas irreais.

Que o Natal se prolongue e seja de atenção ao outro, respeito às diferenças, empatia e alegria genuína.

O Natal não tem cor nem género definido, tal como o mundo é de todos. Que a fricção social diminua, dando lugar à partilha, à leveza e à solidariedade.

Que cada pessoa, em qualquer canto do mundo, experimente a paz e a magia sem interferências, sem sirenes, sem fricções.

Que a MAGIA da INFÂNCIA nunca acabe!

 

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